Branquitude e avaliação: Reflexões situadas sobre decolonização no campo avaliativo
Whiteness and evaluation: Situated reflections on decolonization in the evaluation field
Rogério Renato Silva
Resumo
Este ensaio discute a relação entre branquitude e avaliação a partir de uma perspectiva situada, reconhecendo o lugar do autor como homem branco no campo avaliativo brasileiro. Partindo do referencial teórico de Cida Bento, Charles Mills, Sueli Carneiro e Layla Saad, argumenta-se que a avaliação, historicamente moldada pelo pacto da branquitude e pelo contrato racial, opera em um regime de produção de conhecimento que naturaliza métodos, categorias e linguagens como universais, apagando suas raízes eurocentradas. A branquitude, sistema de poder racial que assegura privilégios, silenciosamente organiza critérios de rigor, formas de escrita e distribuição de autoridade interpretativa, afetando a forma como a própria realidade é compreendida e como os territórios, organizações e populações, especialmente as não brancas, são analisados, representados e julgados. O texto mobiliza conteúdos ético-políticos que propõem deslocamentos do saber, do poder e do ser como caminhos para reconfigurar práticas avaliativas. Revisitando artigos anteriores do autor, identifica-se uma trajetória que já anunciava tensões com o modelo avaliativo hegemônico, ainda que sem tematizar diretamente a branquitude. A partir disso, o ensaio propõe implicações concretas para avaliadores brancos: reconhecer a própria posição como variável analítica, redistribuir autoridade interpretativa, revisar categorias e indicadores racialmente anômalos, desconfiar da estética da neutralidade e produzir devolutivas que fortaleçam múltiplos atores. O ensaio conclui que não há decolonização possível sem descentrar a branquitude como referência epistêmica e metodológica e convoca avaliadores brancos a implicarem-se na transformação do campo.
Palavras-chave
Abstract
This essay discusses the relationship between whiteness and evaluation from a situated perspective, acknowledging the author’s position as a white man in the Brazilian evaluation field. Drawing on the theoretical frameworks of Cida Bento, Charles Mills, Sueli Carneiro, and Layla Saad, it argues that evaluation, historically shaped by the narcissistic pact of whiteness and the racial contract, operates within a knowledge-production regime that naturalizes methods, categories, and languages as universal, erasing their Eurocentric roots. Whiteness, a system of racial power that secures privileges, organizes standards of rigor, forms of writing, and the distribution of interpretive authority, silently organizes standards of rigor, modes of writing and the distribution of interpretive authority, shaping how reality itself is understood and how territories, organizations, and populations, especially non-white ones, are analyzed, represented, and judged. The text mobilizes ethical-political arguments that propose shifts in knowledge, power, and being as pathways to reconfigure evaluative practices. Revisiting the author’s previous articles, it identifies a trajectory that already signaled tensions with the hegemonic evaluative model, even if it did not directly name whiteness. From this, the essay proposes concrete implications for white evaluators: recognizing one’s own positionality as an analytical variable, redistributing interpretive authority, revising racially anomalous categories and indicators, distrusting the aesthetics of neutrality, and producing feedback processes that strengthen multiple actors. The essay concludes that no decolonization is possible without decentering whiteness as an epistemic and methodological reference and calls on white evaluators to become field-transforming agents
Keywords
Referências
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Submetido em:
03/02/2026
Aceito em:
07/04/2026
